O que a gente não enxerga

By Gilka

Sem entrar em muitos detalhes, há poucas semanas eu resolvi por um basta a uma relação de trabalho improdutiva e finalmente procurar um novo emprego. Ainda cumprindo o aviso prévio, comecei a perceber coisas que não percebia antes. A subordinação mascarada de lealdade. Humilhações aceitas em troca de segurança financeira. Eu poderia ter procurado uma saída antes, mas não o fiz por que aparentemente os problemas não eram tão problemáticos assim. Foram dez anos onde tudo era quase lindo, sem realmente ser.

Houve também aquele namoro de quatro anos que alimentava minha paranoia enquanto eu fingia não saber das amantes e flertes. Até o dia em que eu fui obrigada a fazer um desvio acidental e passar na frente do edifício dele para ver a porta automática da garagem se abrindo e revelando a outra bem sentada no banco do carona – às sete horas da manhã! Apesar de ter visto, até hoje não sei se enxerguei todos os cantos sombrios daquela experiência.

Antes que eu passe por estúpida, vou parar a lista de relatos por aqui. A questão é simples: tem coisas que a gente não enxerga. Tudo bem, a questão, na verdade, não é simples. A questão é por que resolvemos não enxergar certas coisas. Será esta cegueira uma virtude ou uma grande limitação?

Não enxergar pode ser um princípio de sobrevivência. Uma maneira de tornar a vida mais confortável e aceitar realidades que talvez não sejam tão fáceis de mudar. Mas depois duas experiências como as que relatei, comecei a me perguntar sobre outras coisas que estariam esquecidas na periferia do meu campo de visão.

Imagino que teus olhos estejam se virando para os lados agora. Os meus estão, ainda que a imagem não seja muito clara.

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Deixa para o acaso

By Francine Desoux, do Opostos e Dispostos

Eu, assim como a maioria dos mortais, sigo uma rotina bastante corrida. De manhã, faculdade; à tarde, estágio; e, durante a noite, academia. A cada troca de turno percorro muitos caminhos e cruzo com pessoas a todo instante. Mas naquela noite não foi qualquer pessoa.

Depois de uma mudança repentina de planos, pulei o treino da academia e fui direto para uma rodada de cachaças com minhas amigas. Fomos a um bar, em Moema, que serve todo tipo de cachaça que você pode imaginar. O que não sabíamos era a programação da noite. Corinthians x São Paulo foi a trilha sonora, além de muitos gritos e xingamentos.

Em meio àquele mar de testosterona, cinco mulheres que só queriam encher a cara de cachaça e dar risadas. Os caras estavam com um olho na tela e outro na nossa mesa. Parecia aquelas cenas de filme americano, quando um grupo de desavisados entra em um bar de motoqueiros. A diferença é que não era exatamente soco que eles queriam nos dar…

Bom, mas entre tantos olhares, um em especial dominou minha atenção. O cara tinha olhos que leem a alma, parecia que a cada troca de olhares ele conhecia exatamente todos os meus pensamentos pecaminosos. Ele era lindo, tinha cabelo comprido, meio bagunçado à la Johnny Depp. Um sorriso lindo, um corpo incrível na medida certa.

Eram goles daqui, gols de lá e passamos a noite namorando à distância. Eu sorria para ele diante de qualquer besteira que uma das meninas falasse. Ele vibrava com o jogo e com cada mexida no cabelo que eu dava. Parecia que conversávamos sem emitir palavras, dançávamos sem sair de nossas cadeiras. Magia…

Passados 90 minutos de flerte, o São Paulo ganhou de 2 a 0 e a nossa partida terminou em empate sem gols. Nenhum dos dois partiu para o ataque – apesar de eu querer desesperadamente!

Com o fim do jogo ele seguiu para o caixa enquanto eu o seguia com os olhos na esperança de receber algum convite, mesmo que silencioso. Mas não. Ele pagou a conta e partiu! E partida ficou a minha cara! Não acreditei, aliás, ainda hoje não posso crer.

Preciso confessar uma coisa: voltei lá todas as noites de Brasileirão durante dois meses! E para desespero deste coração apaixonado nunca o encontrei. Decidi deixar para o acaso e abandonar minhas visitas à cachaçaria (não tinha mais grana nem fígado pra isso).

No dia seguinte o destino – ou o acaso, vai saber – me coloca no elevador do prédio em um horário atípico e ali, naquele metro quadrado,
Daquele dia em diante, peguei o mesmo elevador todos os dias. Afinal de contas, um dia a criança teria que estar gripadinha em casa com a mamãe enquanto o papai sai sozinho! Simples assim, sem escrúpulos mesmo. está uma mulher linda, com seu bebê lindo e seu marido lindo. O gato do Corinthians x São Paulo. Malditas mulheres lindas com seus bebês lindos.

Daquele dia em diante, peguei o mesmo elevador todos os dias. Afinal de contas, um dia a criança teria que estar gripadinha em casa com a mamãe enquanto o papai sai sozinho! Simples assim, sem escrúpulos mesmo.

Yes I am

By Gilka

I’m no artist, nor photographer
I’m no singer, nor composer
I’m no fashionista, nor slim
I’m no banker, nor prince
I’m no digital, nor recyclable
I’m no deal, nor money
I’m no tweet, nor tube
I’m no number, nor percentage
I’m no memory, nor password
I’m no activist, citizen of nowhere
I’m a lover without nos

Me acusaram de otimista

Hoje alguém me acusou de ser otimista. Ok, ok, não foi bem uma acusação, mas deu pra sentir que o otimismo é minha característica mais marcante para esse amigo – arrisco que ele vê isso como um pouco irritante e excessivo.

Tempos atrás uma conhecida disse que achava difícil eu me adaptar em um novo lugar, por ser tão séria e reservada. Pessoal que trabalha comigo me tem como um pouco insana, inconsequente e impulsiva. E muita gente me tira para responsável demais.

Múltiplas personalidades? Não, não, eu sou bem eu mesma, uma só. Acho que a imagem que a gente passa para o mundo acaba dependendo do grupo e da fase de vida. Provavelmente eu sou tudo isso que os outros pensam – em doses menores e mais equilibradas. Espero que sim! Ou talvez alguns deles só tenham me visto na TPM!

A gente faz o mesmo com os outros. Há algum tempo fui viajar com uma menina que conhecia havia três meses, com quem tive identificação imediata. Doze dias de viagem depois, a sorridente e saltitante recém-conhecida tinha se transformado numa quase-amiga emburrada. Com o tempo e a insistência, entendi que essas mudanças de humor fazem parte da personalidade dela – e acabamos virando muito-amigas.

Dia desses me disseram que eu não tinha sotaque – mas até então eu só havia dito “oi-tudo-bom”! A gente julga rápido demais. Dar chance para que as pessoas possam mostrar o melhor e o pior de si é conquistar a oportunidade de conhecer ótimos amigos e estabelecer relações sinceras. Só não dá pra fechar nossos olhos e ouvidos para as outras coisas boas (e más) que podem surgir.

 

Cinco anos

No dia em que fiz 35 anos percebi que faltam apenas cinco para os 40.

Crise? Acho que não, minhas crises não são em relação à idade e sim em relação ao que construí e aprendi até hoje. A construção de patrimônio material não existe, mas sem dúvida a construção interna e o aprendizado estão indo de vento em popa. Já me perguntei algumas vezes se não corro contra a maré, tendo em vista que boa parte das amigas de longa data são casadas, com filhos sendo criados ou em produção, formadas e com todas as titulações possíveis. E certamente chegarão aos 40 realizadas – ou não.

Mas o que é a maré?! É fazer exatamente o que a sociedade espera de nós?!

Mas não fomos nós, lá nos nossos 20 e poucos anos, as modernas que defendemos os direitos iguais, independência financeira e psicológica? Nesse ponto sem dúvida eu represento e muito a classe.

Não acho certo ou errado ser casada, ter filhos e tudo mais, mas por favor não me olhe com cara de desdém quando eu digo que tenho 35, sou solteira, não me formei, não tenho filhos e nem sei se os terei. Se isso acontecer, irei lhe contar tudo o que já vi e fiz, e ainda faço.

Então, sobre meus 40 anos, espero e trabalho para que seja uma década de muitas alegrias, quem sabe um amor, com ótimas viagens, com um dinheiro no bolso que não faz mal a ninguém. Desejo, sim, que eu nunca perca a curiosidade pelo meu aprendizado interior, que eu continue me divertindo com as coisas boas e simples da vida. E que todos errem minha idade para uns cinco anos a menos.

000014 by Viljar Sepp on Flickr

Equilíbrio

EquilibrioAcredito que hoje em dia boa parte das mulheres está satisfeita com sua condição profissional; o meu “obrigada” a todas que queimaram os sutiãs. Porém tudo nessa vida tem um preço, e encontrar o equilíbrio não é tarefa fácil.

De forma alguma acho que devemos voltar ao tempo da Amélia, mas sim precisamos aprender a dosar o lado profissional e o pessoal. Não, não sou aquela mulher que tem filhos, é casada e tem profissão. Sou a mulher que tem profissão, que estuda, que tem quase 35 anos, que é solteira e que talvez quem sabe um dia terá filhos. Por quase um ano me vi sozinha, sem sexo, sem beijo na boca, outras prioridades estavam em pauta, eu não saía de casa e não me via pagando por sexo. Mas agora voltei a sair, a paquerar, a ficar com os caras e até a trocar telefone – até esse ponto, tudo normal.

Porém quando chega a hora do convite para jantar, ou fazer um happy hour, junto com o encontro vem meu discurso de mulher bem-resolvida, que não precisa de homem para viver, nem para pagar as contas, que ama seu trabalho, que não se vê casando, que faz sexo por vontade, não por amor, que não acredita em príncipe encantado. Das duas uma: ou o cara nunca mais me procura, e ainda pensa em me deixar num ponto de táxi para voltar pra casa (mulheres bem resolvidas não precisam de carona), ou vai me ligar na próxima semana, pois afinal de contas esta mulher deve ser um general na cama (e eles adoram!!).

Ele ligou, o sexo rolou, mas digamos que eu estava carente e não fui assim um general. Não houve comentários, mas algo ficou no ar, da parte dele, é claro. Passaram-se os dias, até que tive uma crise de carência, daquelas de só querer um colinho. Mandei uma mensagem mais delicada, e lá se foi por terra tudo o que preguei durante as primeiras semanas.

E o cara some!

Concluo que me falta o equilíbrio, saber ser A profissional e A mulher, que devo deixar a delicadeza aparecer desde o primeiro encontro. Não vou abrir mão, é claro, das minhas convicções – mas posso aprender a fazer o papel da fêmea, pois no fundo todo homem precisa de uma “mulherzinha”.

Ciclo

Véspera dos 34, praticamente 35 para mim. Muitas coisas acontecendo e ao mesmo tempo nada mudando. Reclamando da vida com o Zé, ele tentou me acalmar dizendo que a vida é feita de ciclos, que se dividem em profissionais e pessoais.

A duvida é: quanto tempo dura cada ciclo? Pois o profissional está ali se concretizando, muitas coisas novas, desafiadoras, em um ano. Porém o pessoal estagnado há mais de dois anos. Zé, será que eu parei completamente um ciclo para iniciar o outro?

Bem provável, foi esta a conclusão a que chegamos. Ok, mas agora então avisa lá para o cosmos que eu quero o outro ciclo funcionando, estou precisando! Trabalhar é ótimo, é necessário e me realiza, mas ter um romance é tão necessário quanto qualquer outra coisa na vida.

O Zé me deu uma dica no mínimo interessante: quem sabe tu sai de casa então? Não para trabalhar, mas para paquerar.Mudei muito, o Zé sabe bem, talvez isto também tenha feito que o ciclo relacionamento tenha ficado tão longe da minha realidade. Não quero voltar a ser como era, quando qualquer um me servia, mas preciso voltar a ter no mínimo a emoção de conhecer e sair com alguém, nem que seja para no dia seguinte dizer: putz, que merda, nada a ver.

Portanto, com licença, que vou tomar um banho, escolher um bom modelito, ligar para as amigas e sair para mudar o ciclo.

De volta ao mercado

De-volta-ao-mercadoEste mês decidi que voltarei a olhar para os lados, me permitir a conhecer pessoas, a errar, errar e errar para então sei lá quando acertar. Estive parada, bem parada, neste mundinho chamado relacionamentos. O que andei praticando, e muito, foram aquelas conquistas de loucura de festa, onde o álcool, a música e a galera nos ajudam a ficar com o primeiro que aparece na frente. Mas disto eu já cansei, ja sei de cor como funciona – já estou até dando cursos e palestras a respeito.

Cansei de ficar com o cara, anotar o telefone (não ligar, é claro) e, quando recebia a ligação, no visor aparecia: “Fulano, não atender”. Por que esta revolta? Este comportamento? Porque meu coração estava fechado para o amor. Foi exatamente esta frase que usei para explicar às amigas minha situação naquela época.

Passados alguns anos, cansei de “louquear” por aí. Estou de volta ao mercado, ao mercado do amor, digamos assim. Não saio por aí a procura de, mas agora pelo menos olho para os lados e me permito ser olhada e, se alguém chega perto, sou gentil e converso – aliás, isto eu sempre fiz, mas acredito que carregava uma placa dizendo “Não estou para romance”.

Agora mudei, estou sem placa nenhuma, tenho até um terno sorriso nos lábios. Não foi do dia para a noite que decidi isto, analisei vários fatores e a conclusão é: no momento não quero namorar, mas quero romance, quero alguém que me ligue e eu atenda com vontade, não só com tesão. Porque tesão a gente pode ter por qualquer louco, mas ter vontade da companhia de alguém já é outra coisa.

Já estou preparada para errar, para ligar e não ser atendida, para atender quando me ligarem e até para trocar uma boa cerveja no bar do momento por uma sessão de cinema.

 

Foto: Peter Miller/Stock.xchng

O Zé resolveu falar

[zilla_alert style=”white”] By Zé nº 1 [/zilla_alert]

“Por que não criam o de vocês?”, devem perguntar as minhas amigas, anônimas editoras do Mulheres de Quinta. Bom, queridas, a resposta é simples. Primeiro: sei que não vou ter saco de alimentar um blog só meu (ou “nosso”). Segundo: nós, homens (e falo no plural propositalmente) já concluímos que está na hora de nossa contribuição ir além das frases que o “Zé” lança em conversas – agradecemos o pseudônimo. Além disso, quem ia parar pra ler as nossas coisas? É mais fácil pegar carona no sucesso alheio.
Assim, se a sinceridade não as incomoda, pedimos vênia para expor um ponto de vista masculino e tentar, de alguma forma, realizar a “redenção da raça” ou um mero desabafo. Ocorre que nós, homens, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, também temos nossas queixas, nem todos somos ogros ou príncipes encantados. E é exatamente o gancho do príncipe encantado que escolhi para essa primeira contribuição mais efetiva.

O-Ze-resolveu-falarHá coisa de alguns meses, em meio a um evento da “grande família” (minha vó tornava-se octogenária), presenciei uma cena que ilustra bem a questão. Família toda sentada à mesa, exceto os netos e bisnetos menores – da última leva, todos com idade entre 4 e 7 anos. Enquanto os meninos arrancavam as folhagens do jardim para brincar de espada e golpes do Naruto, a “plincesa” caçulinha do clã escalava o escorregador do playground. Uma vez lá em cima, ela decreta: “Eu sou a ‘plincesa’! Vocês TEM QUE me salvar!!!”. A reação dos gladiadores? Ignoraram solenemente.

Demorei alguns meses para entender que aquela cena, guardadas as proporções, seria uma constante na vida de seus protagonistas. De fato, hoje balzaquiano, tendo passado por mais de uma separação complicada e com alguma experiência “extra-curricular” nas costas, me sinto autorizado a dizer que uma das maneiras mais eficientes de que uma mulher dispõe para atemorizar qualquer bravo que possa pensar em se habilitar é jogá-lo em cima do cavalo branco.

Vocês querem que a gente seja sensível, mas firme. No primeiro encontro, se mete a mão, só quer sexo; se não mete, não gostou ou não gosta da coisa mesmo. OK, é difícil. Mas a gente não está ali para ser o salvador. Vocês lutaram tanto para termos direitos iguais, aí estão os direitos. Rachar a conta? Nossa, é um verdadeiro dilema. Ainda um dia desses, saí com uma menina que tinha como frase de chamada no MSN “Miss Independent”. Chega a conta e eu, querendo fazer bonito, me ofereço para pagar. Ela, prontamente, se dispõe a rachar e até meio que insiste. Eu vou discutir esse assunto com alguém que utiliza uma frase dessas? Melhor não. Simplesmente fingi que não percebi e, rapidamente, deslizei o Santo Visa para dentro da caderneta do restaurante.

Mas o cerne da questão não é esse. A gente sabe que vocês (salvo algumas exceções) topam (e às vezes realmente preferem) rachar a conta. Só que, de um modo geral, ainda querem se sentir cortejadas com essas e outras tantas coisas. A mulher moderna (isso é uma generalização, eu sei), de regra, sabe que pode transar com quem ela quiser sem culpa. Ela é maior de idade, mora sozinha e paga suas contas. Mas essa mesma mulher ainda quer que a gente abra a porta e fale com o pai dela, mostrando nossas boas intenções com a filhinha dele.

O fato, meninas, é que esse meio termo é uma coisa meio complicada de achar. Eu, particularmente, não chego montado em um cavalo branco. Se a montaria está ali, a meu lado no quadro que vocês pintam, podem saber que estou só levando o animal para pastar.

 

PS.: Meninos, este novo espaço só depende de vocês. Soltem o verbo! Contribuições para mulheresdequinta@gmail.com.

 

Foto: Stock.xchng

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