O primeiro e-mail

By Gilka

Meu primeiro e-mail era preto com letras verdes de fósforo e só funcionava dentro da universidade. Tínhamos que ir ao cê-pê-dê e pedir uma senha para ser atendido por uma gorda que retrucava “esse usuário já existe” (trocentas vezes) até ganharmos uma conta no Vortex. Apesar das dificuldades, a febre espalhou-se rapidamente. Como não existiam sites para visitar, e se existissem, não sabíamos o endereço, e se soubéssemos, a operação seria por códigos que ninguém entendia, a opção popular era trocar e-mails com os colegas do mesmo curso. Adivinhem o assunto.

Na velocidade dos três-oito-meias, se descobriu que era mais fácil teclar sobre coisas que não se falava pessoalmente, e se falássemos, também não teria a mesma graça. markinhus@vortex.ufrgs.br ficou com valeria79@vortex.ufrgs.br que acha duarte.bruno@vortex.ufrgs.br gostoso mas nunca teve coragem. Então uma amiga comentou que um dos usuários era bom de cama. Pronto! Eu me apresentei por e-mail mesmo, e fui averiguar a tecnologia. O rapaz? Estudava na minha sala, mas nunca tínhamos dirigido a palavra. A cama? Bem grande. Mas a surpresa foi um amigo dele – a quem fui apresentada e que veio a ser o primeiro homem que amei. Bem ou mal, nos conhecemos através da internet!

Meses depois, essa conexão caiu e arrasou meu sistema. Terapia, terapia, terapia. Fiquei escaldada e passei de lado por todas as evoluções da internet. Caguei e andei pro Orcutifício, pro Caralivro e pro Piante. Confesso que tentei o chate do Terra. Arrumei uma trepada (um horror) e nunca mais entrei. Enchia a boca para falar mal da coisa. Onde tu conheceste ele? Na internet? O quê? Isso não vai dar pé. Imagina, ele pode ter se copiado e se colado todinho, se passado o corretor ortográfico genital e tudo mais. Guria! Isso é um perigo.

Quinze anos e eu forte, crente e fiel ao barzinho, balada, prazer, qual é o teu nome, o teu signo, tu vem sempre aqui? Dia desses eu fui a um bar e me vi naquela situação cama outra vez. Igualmente grande. E dessa vez a surpresa foi o site que ele me apresentou: http://www.last.fm. Uma rádio on-line que registra todas as músicas que eu escuto. A cama seguiu seu rumo, porém a rádio ficou nos favoritos. Navegando entre usuários, conheci um gatinho que vive na Escandinávia.

A primeira mensagem era branca com letrinhas pretas de cristal líquido. Nem dava para notar de tão inocente que foi. Bá, legal o teu gosto musical. Eu respondi. Obrigado por visitar meu perfil, eu também curto Jay-Jay Johanson. Desde então, em dez meses, foram dois mil e-mails, mais de um terabyte de fotos, músicas e filmes trocados, sem falar no Skype. Como é que pode? A gente nunca se encontrou pessoalmente e eu nem quis perguntar o signo dele.

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Acorda Alice

By Gilka

Eu já sonhei em ser escritora. Queria publicar um livro, ficar famosa, dar entrevista no Jô. Até comecei a escrever um blog. Eu Marta Medeiros. Lembrava do Paulo Coelho – e eu já me sentia internacional. Entretanto nunca li um livro por semana, por mês, por ano, que fosse.

Depois eu quis fazer direito. Era uma ótima escolha. Pensei na federal, mas precisava de um ano de cursinho. A católica era muito cara. A luterana? Já estava falindo.

Almejei passar no concurso do Bando do Brasil. Ter uma graninha garantida e aposentadoria. Te puxa, mulher! E eu sequer comprei as apostilas. Foi quando descobri um planejamento mais estratégico: conseguir um cê-cê na prefeitura. Era só arrumar um quê-í.

Não tinha quê-í. Então eu resolvi fugir para o exterior. A Austrália estava na moda. Mas o book continuava na mesa and – has never been on the table! Até hoje não sei se é in, on ou at the table.

O que quer que seja, ou não funciona ou eu mudo de idéia antes. Ainda me lembro quando quis conquistar aquele gatinho que só tinha rendido umas ficadas inesquecíveis. Aquele das quais as outras eram todas malhadíssimas e não fumantes. Tentei uma daquelas dietas que se começa na segunda-feira. Só nos vegetais. A qual acabou na primeira sexta à meia-noite, com a abóbora virando um bauru da lancheria em meio a um laricão.

Falando em cigarro. Ai, ai, ai! Isto sempre foi plano vitalício. Acho nem cabe em uma existência só. Pastilhinha, chicletinho, emplastro, passei pro light, tô cortando, desisti. Fica para a próxima encarnação.

Esta angústia sempre me estrangulou. Tantos planos, tantas ideias que nunca saíram do chão. Será a insolvência fruto de vagabundagem? Moleza? Falta de recursos? Inferioridade? Megalomania? Suponho que seja medo. (Tirando o cigarro, é claro.) Somente medo. De gostar do que eu realmente gosto e achar o foco. Medo de não ter vergonha. De fazer alguma coisa única. Algo que combine comigo.

Medo que vem de brinde no mesmo pacote onde diz que deveríamos ser assim ou assado. Ou para não ser assim e não ser assado. Ser quase nada. Como alguém tentando torcer o pescoço para ler as instruções na parte de trás da própria embalagem.

Falando em invólucro, lembro da Vivienne Westwood, com quem divido a mesma opinião: temos que fazer somente aquilo que gostamos com total envolvimento. Segundo ela, ninguém vira estilista lendo revista de moda. Assim como eu nunca vou virar eu mesma enquanto não parar de seguir o coelho. (Não estou falando do Paulo, porra. É aquele coelho mesmo, Alice!)

 

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Alice by Mary Bailey on Flickr

O Ex Ideal

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Chamá-lo-emos de “ez” – para facilitar o plural “ezes”, já que podem ser muitos.

Diz o velho ditado que esposa se escolhe olhando para a sogra. Contrapondo, nós mulheres (de quinta) deveríamos selecionar nossos homens visualizando o dito cujo já como ez. Ou é a fulaninha do escritório, ou a grana curta. O fim tem sempre seu começo. Relacionamento sempre acaba. Na metade dos casos, a justificativa passa perto do “tu merece alguém melhor do que eu”. Na outra metade, do “sei lá”, seguido da ingestão acidental da língua sem sufocamento do falante. (Ez-falante, daquele momento em diante.)

Como li aqui neste blog, um dia o passado pode sentar na mesa ao lado. Puxar conversa, e voltar à pauta como “ez” em todo o seu esplendor. Eu mesma cultivo vários. Muitos. Não me falta cinema, jantinha, ême-pê-três da hora, carona ou massagem.

Depois do terceiro ez, a gente vicia. Alucina. Quer um ez novo a cada estação. Vê o mundo quase pelo avesso. Ou simplesmente, pelo ângulo que sempre deveria ter visto o bicho homem. Desta forma, também mantenho o risco de levar um outro fora a níveis muito baixos. (Vamos combinar – fora de ez não conta.)

Meu ez ideal é o ez-sexual. Ele não se importa em prestar favores. Até abusa um pouquinho. Passa a fazer coisas que não fazia antes, e que tampouco faz com a “da vez”. Curto também um ez-emocional. Esse geralmente te trocou por outra, se desculpou e virou amigo divã. Íntimo. Mais cedo ou mais tarde, ele acaba “ezando” de umazinha qualquer. Então vem a desforra.

A ez-desforra
O ez bate à tua porta pedindo colo com uma garrafa de vinho embaixo do braço. Prontamente te sentirás única como na primeira trepada (com esse ez, não com o primeiro ez absoluto). Darás o colo, cafuné e o escambau. Tudo sem sexo. Afinal, ez é coisa séria. Quando ele estiver chorando, desarmado, com a cara nas tuas coxas – tu meditarás pausadamente em profundo silêncio: filho da puta (vírgula) viu só como é bom ser chutado?

É por esses entre outros tantos motivos, que eu prego: viver de ezes é viável, saudável e econômico. Os abraços são mais sinceros e as brigas quase inexistentes. Por tabela, escapamos de prestar contas se a relação é aberta e de enfrentar os narizes torcidos da hipocrisia para as coisas da modernidade. Não é nada, gente. Ele é só meu ez, ficamos (amigos).

E para ti? Como é o ez ideal? Desabafos serão bem vindos na janelinha de comentários aqui debaixo. Alívio garantido ou o seu ez de volta.

DummiesDummies by Mira Shemeikka on Flickr

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