Entrando numa fria

Entrando-numa-friaNão sei mais o que fazer. Por que tenho alimentado esse sentimento febril que toma conta de meus pensamentos e da minha carne? Não consigo justificar! Por que quando a possibilidade de sofrer se aproxima sinto aquele estremecer interno que me impede de ir na direção contrária? Nem tento me conter… preciso realmente de ajuda (alguém?). É a encrenca se aproximando e eu mergulhando com tudo mais uma vez.

Deveria eu resistir às investidas daquele menino-homem, estilo Don Juan, que com sua carinha de bebê e mãos obscenas pretende me arrastar ao inferno? De fato – estou me lembrando bem agora –, tudo nele soa pornográfico, não apenas os dedos decididos em busca do meu sexo. Ou será apenas o meu reflexo em seus olhos?

Me deixei perder em sua boca, no magnetismo de seus braços e no seu corpo sedento pelo meu. A razão sinalizava para eu me afastar e, no momento em que pude decidir pela continuidade daquele relacionamento sem pé nem cabeça, adivinha só… Dei para trás. Cedi. Pensava “não”, dizia “sim”. Literalmente, para o deleite daqueles que gostam de me ver ruir. E aquela luta interna entre avançar e interromper só fortaleceu mais meu cego desejo. “Agora é tarde”, dizem… Será que realmente não há tempo? Afinal, uma parte de mim não quer querer tanto assim… Por que a ignoro, se sei de antemão onde tudo vai parar? O que farei então com as inevitáveis lavas em meu peito? Com meus orgasmos múltiplos que no final só servirão para multiplicar também a minha dor? Encontrarei ainda alguma forma de segurar meus impulsos reincidentes e meus movimentos cada vez mais escravos?

Quanto mais eu vejo o quanto temos em comum e percebo que suas fantasias cruzam com as minhas, mais me envolvo e o controle me escapa entre os dentes, em uma libertação conjunta aos meus gemidos – por enquanto, de prazer. Terá valido a pena quando eles se transformarem em angústia?

 

Imagem: Nicolas Raymond/Stock.xchng

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A gente só fala neles

A-gente-so-fala-nelesAi, tenho uma pra te contar!…
Quando uma amiga chega pra ti com essa história, batata, 90% de chance de ser algo que envolve um certo menino. Qualquer menino. Na verdade, entre mulheres, a gente só fala em homem.

O quê?!
Gritarão estupefatas as descoladas intelectuais analisadas de plantão. É verdade, sim, meninas. Não neguem, avaliem. Eu, descolada, intelectual e analisada, assumo. A maior parte dos papos com as amigas gira em torno deles. Ou, pelo menos, a parte mais emocionante dos papos.

Ai, guria, eu amo esse cara!
Ele não é mais o mesmo…
Tu acha que eu devo ligar?
Não importa se a gente conheceu ele ontem – ou se já virou marido e pai dos nossos filhos. Não importa se é amiga do trabalho, da faculdade, do bar. Quanto mais íntima a amiga, mais temos a falar sobre eles.

 

Eu busco algo diferente da vida.
Eu gosto da rotina.
Eu quero ficar sozinha por um tempo.

Às vezes o assunto é mais amplo, mais de fundo. É a gente falando da gente mesma; mas, veja bem, mesmo não mencionados, eles estão ali. Acasalar e ter filhos faz parte do imaginário feminino; a vida, em si, passa a ter significado quando cumprimos nossa missão de mulher e mãe – ou quando abdicamos dela completamente. Falar dos meninos, ou de sua ausência, é dizer sobre a própria vida, quase o sentido dela.

Ah, claro, a gente também conversa sobre política, futebol, trabalho, viagens, música, cinema e uma infinidade de assuntos interessantes, que todas as minhas amigas são inteligentes e bem informadas. Mas só nos intervalos – ou quando “eles” estão presentes. É ou não é? Fala aí.

 

Foto: Jack Horst/Stock.xchng

Oh, mulher infiel…

Meninas, não sei quanto a vocês, mas sempre tive muuuuita dificuldade em ser fiel – independentemente do grau de paixão que nutri pelos meus parceiros. Não sei se tem a ver com a idade ou se algumas de nós realmente nascem com este probleminha. No meu caso, tenho aproveitado a idade para exercitar o autocontrole.

Desde a primeira grande paixão identifiquei este “distúrbio”. Ele morava em outra cidade e eu tinha 15 anos. Usei os dias em que ficávamos sem nos ver como desculpa para me permitir conhecer novos prazeres. Foram quatro anos de relacionamento e quarenta traições. Cheguei até a ter um namorado concomitante. E, pasmem, eu amava aquele homem (o primeiro). Mas também amava o novo mundo que se apresentava para mim: as festinhas pré-vestibular, as noitadas com vizinhos, depois a faculdade e toda a sorte de experiências que ela traz embutida.

Por ter a consciência de que aquele meu primeiro amor não merecia os trocentos chifres em sua cabeça, decidi terminar o namoro. Como ele não aceitou aquele “repentino” desfecho, me vi obrigada a contar toda a verdade. A partir daí, passei a adotar o bordão “eu faço, mas eu conto”. E foi um desastre. Perdi amores em potencial e fiz alguns homens se humilharem, aceitando as minhas confissões de arrependimento, que se repetiam invariavelmente. Achava eu que contar tudo era a maior prova de confiança que eu poderia dar a um homem. Afinal, eu jamais faltaria com a verdade. Poderia existir garantia maior?

Oh-mulher-infielPaguei um alto preço por ceder às tentações; mas resistir às investidas de outro homem seria uma prova de fidelidade? Seria fiel ao namorado e trairia meus próprios sentimentos? Passei então a procurar justificativas para trair, sendo fiel aos meus desejos. Se eu descobria uma mentira qualquer do lado de lá, já me sentia traída e, portanto, autorizada a trair, mesmo que de outra maneira. Era um saco sem fundo.

Passados alguns anos, comecei a entender que não há porque cultivar um relacionamento com alguém se há a necessidade de envolver terceiros. Então é melhor ficar sozinha. Com esta nova convicção em mente, finalmente namorei um carinha sem trair. Qual não foi a minha surpresa quando justamente aí a situação se inverteu: fui traída (não que isto não tenha acontecido antes – provavelmente só não fiquei sabendo). Mas é que vocês não estão entendendo… fui absurdamente traída! Nos nove meses que ficamos juntos, ele deve ter traçado, pelos meus cálculos, umas 90 (e algumas dentro do meu próprio apartamento, um horror). OK, “castigo por todas as relações anteriores” e bola para frente!

Depois deste, voltei a tropeçar e a derrapar em alguns momentos, mas nunca como antes. Hoje continuo tentando ser fiel e tenho sido bem-sucedida, pois permaneço convicta: se é para trair, não há porque ficar junto. Então, quando surge o momento de trair é só terminar a relação e pronto: estamos livres de qualquer culpa.

 

Foto: Diego Zarges/Stock.xchng

O Ex Ideal

[zilla_alert style=”white”] By Gilka [/zilla_alert]

Chamá-lo-emos de “ez” – para facilitar o plural “ezes”, já que podem ser muitos.

Diz o velho ditado que esposa se escolhe olhando para a sogra. Contrapondo, nós mulheres (de quinta) deveríamos selecionar nossos homens visualizando o dito cujo já como ez. Ou é a fulaninha do escritório, ou a grana curta. O fim tem sempre seu começo. Relacionamento sempre acaba. Na metade dos casos, a justificativa passa perto do “tu merece alguém melhor do que eu”. Na outra metade, do “sei lá”, seguido da ingestão acidental da língua sem sufocamento do falante. (Ez-falante, daquele momento em diante.)

Como li aqui neste blog, um dia o passado pode sentar na mesa ao lado. Puxar conversa, e voltar à pauta como “ez” em todo o seu esplendor. Eu mesma cultivo vários. Muitos. Não me falta cinema, jantinha, ême-pê-três da hora, carona ou massagem.

Depois do terceiro ez, a gente vicia. Alucina. Quer um ez novo a cada estação. Vê o mundo quase pelo avesso. Ou simplesmente, pelo ângulo que sempre deveria ter visto o bicho homem. Desta forma, também mantenho o risco de levar um outro fora a níveis muito baixos. (Vamos combinar – fora de ez não conta.)

Meu ez ideal é o ez-sexual. Ele não se importa em prestar favores. Até abusa um pouquinho. Passa a fazer coisas que não fazia antes, e que tampouco faz com a “da vez”. Curto também um ez-emocional. Esse geralmente te trocou por outra, se desculpou e virou amigo divã. Íntimo. Mais cedo ou mais tarde, ele acaba “ezando” de umazinha qualquer. Então vem a desforra.

A ez-desforra
O ez bate à tua porta pedindo colo com uma garrafa de vinho embaixo do braço. Prontamente te sentirás única como na primeira trepada (com esse ez, não com o primeiro ez absoluto). Darás o colo, cafuné e o escambau. Tudo sem sexo. Afinal, ez é coisa séria. Quando ele estiver chorando, desarmado, com a cara nas tuas coxas – tu meditarás pausadamente em profundo silêncio: filho da puta (vírgula) viu só como é bom ser chutado?

É por esses entre outros tantos motivos, que eu prego: viver de ezes é viável, saudável e econômico. Os abraços são mais sinceros e as brigas quase inexistentes. Por tabela, escapamos de prestar contas se a relação é aberta e de enfrentar os narizes torcidos da hipocrisia para as coisas da modernidade. Não é nada, gente. Ele é só meu ez, ficamos (amigos).

E para ti? Como é o ez ideal? Desabafos serão bem vindos na janelinha de comentários aqui debaixo. Alívio garantido ou o seu ez de volta.

DummiesDummies by Mira Shemeikka on Flickr

Vivo apaixonada

Vivo-apaixonadaÉ isso mesmo, sou assim, vivo apaixonada, desde que me conheço por gente sempre tive alguma paixão na área.

Já houve épocas em que a paixão servia pra me fazer sofrer e eu gostava; então veio a terapia, e me fez ver que paixão não é sinônimo de sofrimento. Agora que aprendi como devo tratar a “doença” paixão, levo na boa.

Minhas paixões têm data de validade, algumas duram meses, outras semanas. Sim, são completamente descartáveis, porque não?

Vivo com tanto entusiasmo aquele momento paixonite aguda que uso toda minha eloquência para descrever o dito cujo e sua personalidade, sua aparência. Aí passam-se algumas semanas, volto a encontrar as mesmas amigas, que me perguntam: E então?! Como está o fulano?! Quem? Aaaah! Não falo com ele já faz um tempo, mas conheci um carinha….

E assim segue a vida, com início e fim nas paixões.

Elas não surgem do nada, não olho o cara e digo: Pronto! Tô apaixonada. Tem de ter no mínimo uma boa conversa, quem sabe um beijo para a paixão começar, e se torna mais animada ainda quando há reciprocidade. Às vezes o dito cujo não fica nem sabendo, tudo bem, não tem importância, vivo ela assim mesmo, nestes tempos de Orkut e Facebook fica fácil contemplar alguém a distância.

Estes tempos fiquei sem nenhuma paixão, me senti estranha no começo, depois acostumei com a ideia, mas não demorou muito. Fui num bar com uma amiga, conheci um carinha e lá estava eu apaixonada; passaram-se alguns meses, a distância se fez necessária por motivos alheios às nossas vontades, tudo esfriou. Daí já pintou outro bar, outro carinha e outra paixão…

Talvez o nome pra isso não seja paixão (atração muito viva que se sente por alguma coisa) e sim arrebatamento (estado de espírito caracterizado pela alegria, pela admiração). Embora perca um pouco do encanto, quando a palavra é mais fácil de entender, as atitudes também são melhor compreendidas.

 

Imagem: Andrew C./Stock.xchng

O relacionamento amoroso

[zilla_alert style=”white”] By Laïla [/zilla_alert]

O relacionamento entre duas pessoas vai além da necessidade de suprir carências. Falar que o relacionamento “não deu certo” é como dizer que um copo de água consumido não cumpriu seu papel. Cada um, dentro de suas proporções, deu muito certo. Ambos tiveram início, meio e fim e cumpriram as funções de abastecer corpo, espírito e emoções.

O-relacionamento-amorosoO “que” da questão é a moderação. Um exemplo prático pode ser comparado com o equilíbrio que temos em consumir água suficiente para nossa hidratação. Por que não conseguimos agir da mesma maneira com relação à vivência amorosa? Pois é, desde que nascemos, coexistimos com a necessidade do H2O, mas não somos donos desse líquido, assim como não há propriedade sobre indivíduos de carne e osso. Interagimos com a natureza, mas nem sempre conseguimos o mesmo com nossa natureza.

A vida a dois também pode ser comparada com o intercâmbio de um organismo humano e seu sistema respiratório. O ar nos proporciona oxigênio e recebe nossa vida. É um eterno dar e receber, sem exigências ou posses. Cada um respeita seus próprios limites, dá o que pode e recebe o que o outro oferece.

Com essa observação, podemos aprender que o nosso medo e insegurança representam uma bagagem nociva para a interação afetiva. É como colocar um vestido de festa na mochila que vai nos acompanhar em um acampamento. Precisamos do medo e da roupa social só para alguma eventualidade. O receio marca os limites que não devem ser ultrapassados, assim como o pretinho básico lembra que não há necessidade de tirar os sapatos.

Se houver amor (simpatia, afinidade, carinho, tesão…) e cada um fizer sua parte, o relacionamento acontece naturalmente e para sempre, indiferente se foi um dia ou um século. Então, a existência de um homem e sua mulher jamais deu errada ou é errada. A vida deles só diz respeito a eles e ninguém tem o direito de atribuir denominações pré-determinadas por convenções. Se ambos precisam, ou deixam de necessitar um do outro, é porque não há um porquê a ser comunicado à sociedade.

Cada casal “deu certo” ou “dá certo” a sua maneira. A interação ocorre pelo tempo que os dois acharem necessário, semelhante ao ar e nossa vida terrestre. Quando cumprirmos o nosso ciclo, sairemos dessa esfera planetária. E isso não quer dizer que um ex-vivo não deu certo, assim como um ex-namorado.

 

Foto: Davide Guglielmo/Stock.xchng

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