Que saudade dos meninos!

O Paulo acabou de sair aqui de casa. Ele? Não, não é meu namorado, nem ficante, nem peguete, ao contrário do que se poderia esperar. Não, não fizemos sexo, nem brincamos de azarar: durante uma hora, jogamos conversa fora, acompanhados de uma cerveja. O Paulo é meu amigo.

Ué, mas existe essa história de homem e mulher serem amigos? Sei lá, tem gente que diz que não – eu discordo. Desde a infância fiz parte de turmas mistas, formadas por meninas e meninos. Foi o mesmo no segundo grau (era como chamavam o nível médio, gurizada) e na universidade. Tive amigos incríveis, daqueles que guardam segredos e são capazes de dar uma opinião honesta sobre nós e nossos dilemas. Não, eles não eram gays (bem, só alguns deles). Sim, eu beijei a maioria. Mas isso não impediu que continuássemos amigos. Algumas amizades inclusive começaram assim, ou se tornaram mais íntimas justamente pelos beijos trocados.

Foram-se os anos, o colégio, a faculdade. Os melhores amigos se mantiveram. Veio a profissão, e dei a sorte/azar de trabalhar sempre em meio à mulherada. A galera de antigamente foi tomando outros rumos. E calhou que, depois dos 30, me vejo quase que exclusivamente cercada por mulheres. Amigas e amigas de amigas, queridas e imprescindíveis. O problema é que acostumei a ter os meninos por perto, a contar também com as opiniões masculinas sobre o mundo, a vida e a profundidade do meu decote.

Sei que alguns amigos foram para não voltar, levados por vontade própria ou por uma mulher ciumenta – daquelas que não acreditam que possa haver amizade assim. Com os demais, embora não os veja com frequência, procuro manter a ilusão da proximidade, seja no MSN, no Orkut ou em cervejas esporádicas. Por que é tão difícil ter amigos homens depois dos 30? Por que qualquer nova aproximação, depois dessa idade, fica parecendo jogo, cantada, azaração?

Amigos-meninos, eu estou com saudades de vocês.

PS: quem inspirou esse post foi o Cafa, que não acredita em amizade entre homens e mulheres. Não conhece o blog do Cafa? Garimpa aqui.

 

Imagem: BSK/Stock.xchng

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Vinte e oito

O texto a seguir não foi escrito por uma Mulher de Quinta, mas cumpre a função de apresentar nossa nova colaboradora: a Carminha! Nossos mais sinceros agradecimentos ao “apresentador”, que, de coração, sempre foi de quinta.

Camden Town, London, UK  - May 2005  - Patrick Nouhailler  ©
Camden Town by Patrick Nouhailler on Flickr

“Olha só, eu tenho uma grande amiga que também está indo para Londres no dia vinte e oito.” Grande coisa – todo mundo vai pra Londres! Pensei, mantendo meu sorriso confiante de mala feita. “Ela é carioca, mas cresceu aqui em Poa. Vive perdida pelo mundo.” Isso era uma quinta, e o e-mail anotado no guardanapo – “carminha arroba hotmail ponto com”.

Um oceano, quatro casas, sete room mates depois, seis graus abaixo, eu resolvi escrever para essa tal mulher. Combinamos em um pub muito grande, fétido como todos os outros, junto à estação de metrô dos punks e hippies. Tal qual a descrição – não existia Facebook –, lá estava aquela mulher de salto, jeans, blusinha tomara-que-caia, jaqueta de pele, incontáveis pulseiras barulhentas e um pára-brisa Dolce & Gabbana frente-única, de dobrar a esquina das orelhas. Olhamos um para o outro em silêncio de quem não fala a mesma língua. Carminha atirou primeiro. “Tu és gay? Não és?” Vaca! “Tua mãe fazia terapia freudiana e tu continua gastando dinheiro com terapeuta” – respondi, já amando Carminha. Assim foi o primeiro uísque e a primeira verdade que batemos em cara.

Depois foram os supermercados e os problemas de família. Os produtos budget da prateleira mais debaixo e o pai alcoólatra. A mãe e o seu amante foram conversados sobre o balcão de congelados. Levamos todas as nossas mágoas e traumas para passear nos mercados de rua. Comprando roupas de segunda mão, Carminha apontou que eu era grosseiro com as mulheres, de uma forma bem direita, tá, assim, na minha opinião né – eu acho. Eu disse outras tantas, mas Carminha tinha quinze anos a mais no passaporte. Nunca soube o que havia lhe penetrado a maquiagem espessa.

Até que rolou um quarto vago no apartamento de Carminha. Éramos então vizinhos de porta. Carr’minha e Giubérr’to usando o mesmo esfregão para limpar a mesma privada.

Quando aconteceu que alguém me ligou pedindo para ir à opera e jantar. Na passada para o banheiro, avistei Carminha subindo as escadas. “Querida! tu nem sabes. Ele me convidou. Vou levar aquela balinha que tu me deu de presente. Parece que ele também nunca experimentou.” Carminha continuou o trajeto para seu quarto, jogou o cabelo e olhou para mim. “Ai, que legal.” Com o corpo já dentro do quarto, a porta se fechou. Retornei para casa no dia seguinte uma única certeza: eu precisava dividir com Carminha. Bati à sua porta. “Ai guria! aquela coisa não deu nenhum barato, mas fez a gente falar tudo. Estamos juntos outra vez! Thank you, darling.” Carminha não tinha mexido os olhos – ainda. E tampouco se importou em movê-los. Ali, na mesma posição desde que tinha aberto a porta, falou em um acorde só “Que bom pra ti”. A porta se bateu. Era dia vinte e oito.

Amigo gay

[zilla_alert style=”white”] By Carminha [/zilla_alert]

Todosss aqui já me conhecem, todo mundo já me apresentou, agora é a minha vez: prazerrrrr, sou Carminha. Já aviso a todosss que meu sotaque carioca vem de dentro, nos momentosss oportunosss, porque, como vocês sabem, morei no sul. E esse lindo sotaque também me contaminou, sou assim, me deixo levar pelas coisas boas da vida.
Então, já fiz de um tudo nessa vida, já rodei o mundo, meu bem! Tenho horroresss para contar, por isso estou aqui com essasss Mulheresss de Quinta maravilhosasss.

Mas eu não fico só com as garotasss: toda mulher que se preza tem de ter um amigo gay, não há nada melhor. Eles têm o cérebro masculino, mas a alma é feminina, e te dizem tudo na cara, desde um “tu tá linda, amorrrr” até “ai, que bofe nada a ver, né?!!!”.

Amigo-gayNuma dessas minhas moradas pelo mundo parei em Londresss, ai que tudo!! E lá encontrei esses dois seres de luz que só tem duas em coisas em comum: são gays e amam nossa diva Madonna!! Me completavam, os danados: um no estilo alegria total, rindo alto, ouvindo Gal às sete da manhã; o outro se procurando, questionando, Pet Shop Boys era o que tocava no quarto dele.

Essesss doisss fizeram minha vida em Londresss mais glamourosa do que eu imaginava, quantas pints dividimos, quantos cigarrinhos do demônio fumamos. Só eles para entender o estilo Carminha de serrr, de viverrr, de gastarrr, de comprarrr. E os bofes, então?!! Se não fossem eles me abrindo os olhos, nem sei onde estaria hoje. Porque vocês sabem, né? Boa noite cinderela exissste sim.

Morei com eles, anosss de convivência, de confidênciasss, de momentos tensos, outros tristes também, mas tudo se resolvia com ótima conversa, boas mexidasss no cabelo (ah, o cabelo!! Elesss sempre compreenderam todasss as mudançasss que fiz nos meusss cabelos, do platinado ao ruivo cenoura, só os gays são capazes disso).

Levo eles no meu coração. Londresss já era, agora estou noutra, amorrr! E os danados seguem por lá, fazendo a terra da rainha muito mais glamourosa. G e J, amo vocêsss!! Saudades sempre.

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