Papo viajante

“El verdadero viaje al descubrimiento no consiste en cambiar de paisaje, sino en mirar con nuevos ojos.”

Não é fácil sair do lugar. Quanto mais tempo, mais difícil é sair. Lá pelas tantas a gente nem vê saídas. Isso serve para relações, trabalhos, moradias, tudo que possa se transformar de prazer em hábito, hábito em rotina, rotina em prisão.

Comigo foi assim: fui acostumando, deixando pra pensar depois, deixando a vida me levar. Rotina, leva eu. Nessas, acabei deixando pra depois aquilo que pra mim é sentido da vida: viajar.

Todo mundo gosta de viajar. A palavra está associada a descanso e lazer – paraíso à beira-mar, foto na Torre Eiffel. O difícil é encontrar quem realmente goste de estrada. Além das desculpas tradicionais – pouca grana e pouco tempo, falta de companhia e até trânsito ruim –, quando se contrapõe uma visão diferente da coisa surgem as justificativas menos óbvias: ah-eu-não-vou-ficar-num-pulgueiro, ah-mas-eu-quero-ir-pra-europa, ah-viajar-sozinha-é-perigoso. E assim a gente não sai do lugar.

OPapo-viajantek, ok, alguém vai dizer que para tirar férias é preciso conforto e segurança, básicos para se relaxar. Só que viajar vai muito além de férias e relax: viajar é conviver com outras formas de ver o mundo, conhecer gente diferente, que fala e pensa diferente, outras paisagens, outros jeitos de resolver as coisas.

Não precisa ir longe e nem é caro: às vezes a grande viagem pode ser feita no bairro ao lado, observando as dinâmicas diversas que coabitam na metrópole. Ou sem sequer virar a esquina: dia desses eu percebi que não conhecia a “parte de cima” da minha avenida, sua arquitetura, seu comércio, seu emaranhado de céus e fios.

Quando sobra uma graninha, nem tanta, dá para esticar o horizonte. Como é o dia a dia de quem vive em uma cidade diferente, menor ou maior? Que discrepâncias compõem esse Brasil? Mais um pouco, cruzar uma fronteira, escutar outra língua, desconectar-se das notícias diárias e viver temporariamente vida de estrangeiro. Creio que essa é a ruptura total: mais do que o corpo, o cérebro descansa pleno, aliviado da rotina-prisão.

Confesso que sou um pouco chata: aonde quer que vá, preciso de cama macia e chuveiro quente. Mas isso pode ser mais barato do que se pensa, abrindo mão das chatices e encarnando o espírito viajante – aquele que valoriza mais a experiência do que os suvenires. No convexo, também há quem gaste muito para cruzar o mundo sem sair do lugar, mantendo as viseiras levantadas, em lugares pasteurizados e hotéis impessoais. É uma questão de gosto. No entanto, quando a gente viaja, seja atravessando continentes ou a fronteira do município, temos o privilégio raro de deixar momentaneamente nossa vida para trás, conhecer as rotinas alheias e, no contraponto, quebrar as grades de nossa cela. Por que não aproveitar?

Advertisements

One thought on “Papo viajante

Add yours

  1. O segredo eh perder o medo de dar a cara pra bater, depois da primeira saida a gente nunca mais deixa de viajar, de querer aprender, de querer conhecer.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Blog at WordPress.com.

Up ↑

%d bloggers like this: